
O relógio como jóia
quando o pulso vira o novo ponto focal do look
Durante décadas, o relógio ocupou um lugar meio à parte no universo da moda: era o acessório da funcionalidade, o item que "combinava com tudo" justamente por não chamar tanta atenção. Essa lógica mudou. As passarelas, os red carpets e os principais guias de tendência de 2026 apontam na mesma direção: o relógio deixou de ser só um marcador de horas para se tornar, de fato, uma joia de pulso, pensada, combinada e colecionada como tal.
De utilitário a protagonista
O movimento não é exatamente novo, mas ganhou força e consistência este ano. Editoriais como o do Who What Wear descrevem como os relógios deixaram de ser exclusividade de "tycoons de Wall Street" ou de um universo old money fechado, tornando-se peças mais democratizadas e desejadas, sem perder o ar de sofisticação que sempre carregaram. Já a ELLE Brasil registrou o retorno do relógio tradicional analógico às passarelas, citando marcas como Ralph Lauren, Louis Vuitton e Dolce & Gabbana, que devolveram o acessório ao pulso como uma espécie de "assinatura" do look, e não como coadjuvante.
O caso mais simbólico talvez tenha sido o de Zendaya no Oscar 2026, com um Rolex completamente coberto de diamantes. O relógio não estava ali para dizer as horas, estava ali para brilhar.
As tendências que definem o relógio-jóia em 2026
Tamanhos delicados e discretos. Depois de anos de caixas grandes e statement, a maré virou. Guias de tendência apontam para modelos menores, muitas vezes abaixo dos 30mm, resgatando a estética dos relógios de vestido dos anos 1950 e do Art Déco. É um design pensado para ser notado de perto, não de longe, e que, curiosamente, se tornou unissex, adotado tanto por quem cansou de relógios femininos "cheios de brilho" quanto por homens que trocaram os modelos volumosos por algo mais discreto.
Cocktail watches. Se o streetwear teve o hype dos tênis, a joalheria de 2026 tem os cocktail watches. Peças como o Cartier Baignoire e o Première Galon, da Chanel, simbolizam esse movimento: relógios pequenos, preciosos, às vezes cravejados, que hoje são usados no dia a dia e não apenas em ocasiões formais. A ideia é justamente borrar a fronteira entre função e adorno.
Vintage e "quiet luxury". O revival vintage segue forte, e, segundo o blog da Mondaine, é exatamente esse resgate que aproxima os relógios das joias: pulseiras finas e delicadas, acabamentos em ouro e prata, mostradores discretos. É a mesma lógica do quiet luxury: menos logotipo, mais acabamento e mecanismo. Marcas como Movado e Calvin Klein têm apostado nesse território, com pulseiras em mesh e mostradores minimalistas.
Bicolor e mix de metais. Combinar tons prateados e dourados em uma mesma peça deixou de ser "erro de styling" para virar recurso de versatilidade. O relógio bicolor dialoga tanto com joias douradas quanto prateadas, e por isso vem sendo destacado como aposta segura para quem quer praticidade sem abrir mão de sofisticação.
Mostradores de pedra e materiais nobres. No universo de alta relojoaria, dials em pedras semipreciosas ganharam destaque. Cada mostrador é único, como uma pequena obra de arte, aproximando ainda mais o relógio do estatuto de joia exclusiva.
O grande recado: mix & match
Talvez a mudança mais significativa não esteja em um modelo específico, mas em como o relógio passou a ser usado. A tendência de stacking (empilhar camadas de pulseiras, anéis e o próprio relógio) consolidou-se como o jeito contemporâneo de compor o pulso. A recomendação recorrente nos guias de styling é usar o relógio como peça central e, ao redor dele, adicionar pulseiras mais finas, para criar volume sem parecer excesso.
Essa lógica também aparece nos blogs de relojoaria nacionais, que reforçam a ideia do "mix & match": combinar o relógio com pulseiras e anéis da mesma paleta metálica, tratando o conjunto como uma composição de joalheria, não como peças isoladas.
Por que isso importa para quem escreve sobre moda
O reposicionamento do relógio como joia conversa com um movimento mais amplo da joalheria em 2026: peças que se pretendem atemporais, herdáveis, com valor afetivo, o oposto do descartável. Não à toa, uma marchande de relógios vintage entrevistada pela ELLE Brasil descreveu o relógio feminino como algo "deixado como legado", muitas vezes preservado para ser passado entre gerações. É esse valor simbólico, mais do que a função de marcar o tempo, que hoje sustenta o desejo por esse tipo de peça.
Para o mercado editorial e de moda, isso abre uma pauta rica: do styling (como compor looks com o relógio como peça de joalheria) ao mercado de vintage e pré-owned, passando pelas colaborações entre grifes de luxo e altas casas de relojoaria. O relógio, enfim, conquistou seu lugar na vitrine, não mais atrás do balcão da "utilidade", mas ao lado do colar, do anel e da pulseira, como mais uma peça central da narrativa de estilo.
Matéria construída com base em coberturas de tendência de moda e joalheria de 2026 (Who What Wear, ELLE Brasil, Mondaine, Vivara, Glimpse, entre outras), reunindo o consenso do mercado sobre o relógio como acessório de joalheria.













